O que nos tornamos?

Eu às vezes me pego questionando se nós – seres “humanos” – estamos, realmente, evoluindo como espécie ou apenas aprendemos a lidar melhor com o Photoshop e a vender nossa imagem de maneira mais convincente.

Porque, de longe, todo mundo parece ecologicamente correto, politizado, bem informado (e bem formado), educado, honesto, civilizado, culto e bem vestido.

Mas, de perto, é tanta gente mesquinha, vil, aproveitadora, desleal, artificial e arrogante, que eu sinceramente tenho minhas dúvidas.

Observe: hoje em dia, todo mundo fala três idiomas e arranha mais uns dois, mas poucas pessoas se lembram de usar expressões simples como “por favor”, “com licença”, “obrigada”, “me desculpe”. Valoriza-se tanto e cada vez mais a beleza exterior e as aparências, e negligenciam-se absurdamente as questões de essência e de caráter. É tanto sorriso, good vibes e #gratidão no Instagram, e tão pouco afeto e calor humano na vida real. É tanta viagem internacional e tão pouco bom dia ao vizinho.

Francamente, eu não tenho provas mas tenho convicção de que não adianta a gente ter mais acesso à informação, à tecnologia, a bons livros, a restaurantes sofisticados, se os valores mais primários não fizerem parte da nossa formação básica enquanto seres humanos: educação, respeito, consideração, reciprocidade, lealdade, honestidade, transparência, compreensão, gentileza, generosidade, empatia, entre tantos outros.

Porque eu vejo tanta pompa, tanta circunstância, tanto pronome de tratamento e certificado, e, em contrapartida, também vejo um mundo cada vez mais cruel, egocêntrico, poluído e contaminado de negatividade. Vejo pessoas se tornando cada vez mais fúteis e mais frívolas, e talvez até meio corcundas de tanta obsessão com o próprio umbigo. Reis e rainhas de si mesmos, desesperados e despreparados, armados de ignorância e intolerância até os dentes. Tão eloquentes, e tão incoerentes; cínicos e hipócritas, que não estendem a mão a não ser para mostrar o punho cerrado.

Então, com o perdão do meu pessimismo crônico, mas será mesmo que estamos nos tornando pessoas mais analíticas, com reflexões e opiniões mais aprofundadas, mais racionais e conscientes, e fazendo jus a esse famoso mundo mais democrático e plural? Ou apenas continuamos sendo os mesmos homens e mulheres das cavernas, hostis e primitivos, mas agora mais pedantes, implicantes, irritantes, soberbos (só que cheirosos e com um melhor vocabulário)?

Fica o questionamento.

Palestrante de boteco. Tuiteira estressada. Blogueira frustrada. Sarcástica compulsiva. Corintiana (maloqueira) sofredora. Capricorniana com ascendente em Murphy. Síndrome de Professor Pasquale. Paciente como o Seo Saraiva. Estudiosa de cultura inútil. Internet junkie. Uma lady, só que não. Boca-suja incorrigível. Colunista de opiniões aleatórias. Especialista em nada com coisa nenhuma.