Horizonte-se

a gentileza abandonada quase não parece sua
é um look emocional destoante
logo você, colecionadora de sorrisos em espelhos
forte como o café antes do bom dia
tentando entrar nesses trajes pouco comuns

pra quem desfilava euforia
os sapatos da decepção lhe apertam
e não como os melhores abraços
não como a segurança da epiderme
não como você sempre gostou de ser

julgo quem roubou sua versão antiga
costumes que pareciam te definir
uma legenda automática pra cada ato
a simetria de ações que odiava surpresas
hoje soa enigmática com tanta classe
pisando levemente em tudo o que era

se vestiu do que guardou
das histórias que nunca contou
dos lugares que apenas viu e hoje visitou
descobrindo num só dia o que não aprendeu na vida
e numa só noite o que sempre soube

passos lentos para aproveitar a vista
que foi comprada à prazo
pois nada foi de graça
e ainda que desconfortáveis
as novas roupas valem o preço
mesmo que sem etiqueta

as pessoas seguem verticais
enquanto você abandonou a subida
pra se tornar
horizonte

Colecionador de selinhos em agências dos correios, massagista aposentado de ego, flerta de óculos escuros e só aceita que caiam no seu conceito de boca. Também trabalha como fabricante de pontos de exclamação e recentemente foi nomeado Membro Honorário da Academia Brasileira de Ironia e Sarcasmo. 30 e duas estações do ano completas. Casado, logo, fora do mercado mas dentro dos seus fones de ouvido.