Divã-neando

Janela Indiscreta

Escrito por Rose Carreiro

De frente pra minha janela tem um apartamento em que moram três mulheres – aparentemente mãe e duas filhas. Todas adultas. Uma delas tem um cachorro, o Theo. Descobri o nome do yorkshire esses dias, quando ele “avançou” pro meu lado na calçada. Nem sei se tem H no nome do Theo. Na minha cabeça, tem.

Pois bem, você pode achar que eu sou uma enxerida que fica vigiando quem mora no prédio ao lado. E eu sou. Não é que eu fique bisbilhotando a vizinhança… é que ela está ali, ao alcance dos meus olhos, cada vez que abro a janela.

Nunca morei de frente pra casa de ninguém, e agora, vivendo há oito meses de cara para um prédio residencial, é inevitável não observar o cotidiano alheio.

(imagem meramente ilustrativa)

(imagem meramente ilustrativa)

De frente pra minha janela tem um apartamento em que moram três mulheres – aparentemente mãe e duas filhas. Todas adultas. Uma delas tem um cachorro, o Theo. Descobri o nome do yorkshire esses dias, quando ele “avançou” pro meu lado na calçada. Nem sei se tem H no nome do Theo. Na minha cabeça, tem.

Como eu adoro cachorros mas não tenho um no momento, me contento com as migalhas que o Theo me dá. Theo fica no sofá a maior parte do tempo, e às vezes faz graça, fica cavando no estofado, deita de barriga pra cima e fica horas assim, e sempre faz arruaça quando alguém chega à porta. Sempre que tem alguém comendo perto do Theo, ele fica com cara de pidão, como todo cachorro, e suas donas falam com ele com aquela voz de neném, como todo dono de cachorro. Eu me divirto. Toda vez que Theo me vê pela janela, começa a latir enlouquecidamente e eu tenho que sair dali.

Mas há muito mais coisas acontecendo naquela casa que eu gostaria de saber em detalhes. O que elas comem (estão na maior parte do tempo no sofá comendo em potinhos). O que assistem na TV (já que ficam tanto tempo diante dela). Será que são fãs de The Voice ou de Cozinha Prática? Ou são fanáticas pela Globo, como na minha família?

Outra coisa que eu queria muito descobrir é no que trabalham, já que muitas vezes uma ou outra está em casa durante o dia e usando pijamas. A mãe está sempre de bermuda, uma das filhas usa shorts curtíssimos e fica de bruços no sofá. A irmã usa um pijama que parece a bermuda do Chaves. Ah, e sempre alguma delas dorme no sofá, mas o apartamento parece ser grande – tem pelo menos dois quartos. E essa uma está sempre falando ao telefone / mexendo no celular ou computador. Ainda não consegui distinguir as duas irmãs, são muito parecidas, então as divido pelo comprimento do pijama.

Nos fins de semana vem um senhor (deve ser o pai) e volta e meia sai com o Theo. Eu gostaria de entender essa relação. Por que o senhor, que na minha ideia agora se chama Edson, não mora lá? Quais as circunstâncias da separação? Também penso se nenhuma delas tem namorado, porque nunca vejo outro homem na casa. Raramente recebem visita. Viajam nos feriados, mas deve ser pra algum lugar perto, pois ficam poucos dias fora. E nessas viagens, assim como todo domingo em que elas saem de casa,  o Theo vai junto.

Queria ter o desprendimento de puxar conversa quando topasse com uma delas na calçada. Theo sempre sai pra fazer seu cocozinho no fim do dia, eu poderia abordar a vizinha e puxar papo. Primeiro descobriria os nomes, diria que moro no prédio ao lado. Falaria que trabalho com Turismo (poderia tentar vender uma viagem!), e então saberia no que uma delas trabalha. Me ofereceria para ficar com o Theo quando precisassem… e à medida que tivesse intimidade, iria contando o que descobrisse aqui, não seria genial?

Demorei oito meses pra descobrir o nome do cachorro. Teria de parar de observá-las pela janela, ou me notariam. O Theo nem vai com a minha cara, nunca seria sua babá.

É, acho que não conseguirei responder às minhas perguntas tão cedo.

Sobre o autor

Rose Carreiro

Nascida num 20 de Outubro dos anos 80. Naturalmente petropolitana, com passaporte carioca. Flamenguista pé frio e expert em não se aprofundar em regras esportivas. Fã de Verissimo – o Luis Fernando – e Nelson, o Rodrigues (apesar de tudo). Poser. Pole dancer com as melhores técnicas para ganhar hematomas. Amadora no ofício de cozinhar e fazer encenações cômicas baratas. Profissional na arte de cair nos bueiros da Lei de Murphy.