Eu, com a cara mais lavada, digo: por que não?
Sempre tive, desde que era uma criança de quatro anos que foi a única menina a não ganhar um estojo de maquiagem infantil ou acessório de beleza no amigo secreto da escola, a sensação de que eu não era como todo mundo. Que conste, ganhei uma caixa de lápis de cor. De 12 cores. Do lápis pequeno.
Nunca fui a menina que dormia na casa dos amiguinhos, ou que recebia os amiguinhos em casa. Podia brincar na rua, mas por um horário limitado, e depois era casa, banho, jantar, e pronto.
Também nunca fui a passeios escolares, como aqueles pra levar as crianças a museus ou ao zoológico. Nunca ganhei um concurso de Miss Primavera, nem fui a noiva na festa junina. Sempre ficava na reserva em qualquer time esportivo da escola.
Na adolescência, todas as colegas da sala já tinham seios, já tinham menstruado e já tinham ao menos ficado com alguém. Menos eu. Meu primeiro beijo foi armado, escolheram um menino pra ficar comigo – uma só vez, e nunca mais ele me procurou. Fiquei uns três anos até beijar alguém de novo. E só aconteceu porque contaram pro meu crush que eu era a fim dele.
Eu não tive uma festa de 15 anos com direito a salão, vestido longo e valsa. Não que eu quisesse – eu já era uma metaleirazinha melancólica naquela época, queria um aparelho de CD de aniversário pra ouvir minhas músicas tristes chorando no canto.
Meus jeans da adolescência não eram os da moda, e demorou até eu parar de usar roupas infantis, que eram escolhidas pela minha mãe, e que me deixavam com mais cara de criança ainda. Na sexta série, minha professora de Geografia me chamava de Neném, não só pela cara, mas pelo cabelo bagunçado, altura, peso e roupas. Eu tinha 12 anos e pesava 28kg.
Eu via todas as meninas com curvas e cabelos compridos, e roupas de adulto, e me perguntava: por que eu não era assim?. Cresci (com muitas aspas) e continuei me sentindo uma “por fora”. Aí, veio a fase da faculdade, e muita gente que eu conhecia e tinha a minha idade tava se formando, menos eu. Comecei tarde, parei porque o desconto acabou e eu não podia mais pagar. Voltei depois de “velha”. Por que eu não podia ser uma jovem com um diploma de ensino superior na mão?
Quando comecei meu primeiro namoro “sério”, tinha planos de um dia noivar, casar, ter minha casa, e naquela época eu até pensava em ter filhos. Terminei. Terminamos. Depois, no meu relacionamento mais longo, eu fiquei noiva. Nunca fui pedida em casamento. Moramos juntos, e meu ex nunca dizia pros outros que era casado ou que eu era a mulher dele. Eu sempre fui a noiva. Até eu não ser mais.
Me separei aos 36 anos desse noivado que era praticamente um casamento, mas que nunca foi oficializado. Comecei a vida do zero de novo e, enquanto meus amigos estavam tendo filhos e fazendo viagens, eu estava alugando um apartamento e adotando uma gata.
Não era só nas grandes coisas que eu pensava que eu não era como todo mundo. Me lembro de quando surgiram as pulseiras da Vivara e da Pandora – aquelas dos berloques – e que todas as minhas amigas ganhavam de presente dos namorados, maridos, noivos, pais… eu nunca ganhei. Joguei verde pro meu então noivo e ele nunca caiu.
O pior é que nem era pelo valor, porque meu ex já presenteou com coisas que custavam o mesmo. Ele só nunca se deu conta do que eu realmente queria. E eu também poderia comprar, mas a questão é que a pulseira da Vivara não tinha a mesma graça se eu mesma comprasse: o legal era ganhar. Ganhar a pulseira da Vivara me faria fazer parte.
Eu nunca tive a cintura fina, nem os dentes brancos. Nunca estive na moda. Aos 41 anos, não sei dirigir, nem nadar. Nunca me casei, nunca engravidei. Tive um apartamento financiado que ficou na separação. E até, apesar de nunca ter tido filhos também por vontade minha, sinto falta de em algum momento alguém ter querido formar uma família comigo. Alguém ter me escolhido pra casar, pra formar um lar.
Acho que boa parte desse sentimento de falta vem da forma como nós, mulheres, somos criadas pra seguir esse roteiro da vida. Mas, e quanto ao resto? Muito se dá pela minha criação, pela condição econômica em que eu cresci, e até pelo meu biotipo. E, é claro, pelas minhas escolhas. Mesmo assim, na vida adulta, eu não consegui ser igual. Por que eu não consegui que as minhas expectativas fossem supridas, ainda que fossem coisas banais ou superficiais como uma bendita pulseira de berloques da Vivara?
Uma vez, minha (ex) terapeuta me disse que eu era uma mulher atípica, e era por isso que era difícil achar alguém que combinasse comigo. Guardei aquilo e pensei que, ao menos como pessoa, ser atípica poderia ser especial, ou apenas diferente da maioria. E ser diferente soa legal. Mas, então, porque, eu não me sentia legal sendo diferente? E, por que nem no resto, nem na pulseira da Vivara ou no anel de noivado, eu consegui ser igual? Por que todo mundo tinha essas coisas, por que todo mundo era assim, e eu não podia ser parte disso?
Hoje, eu tenho um namorado que amo, gatos que me fazem companhia, amigos que são poucos, mas que eu não troco por nada. Encontrei um trabalho que amo – o que nem todo mundo encontra numa vida toda – e tenho até o meu bar favorito. Mas, ainda assim, revendo a minha vida, as minhas escolhas, sentindo as minhas faltas, e tentando não ligar pro que passou, essa pergunta sempre bate aqui: Por que não eu?
