Divã-neando Pensamentos crônicos

Aceita que dói menos. Será?

Escrito por Mayara Godoy

“Amar e mudar as coisas me interessa mais”

Desde que me conheço por gente, uma característica muito marcante me acompanha: eu sou uma pessoa inconformada. Eu não aceito a primeira resposta, nunca me dei por vencida por um “porque sim”, e frequentemente me pego questionando até os mínimos detalhes de alguma coisa com a qual não concordo ou considero injusta.

Há quem ententa esse traço de personalidade como simplesmente uma pessoa “chata”, e tudo bem que pensem assim. Mas desde muito pequeninha, eu sempre fui aquela criança “boca dura”, que argumentava, insistia e elaborava longos discursos sobre por que meu ponto de vista deveria ser levado em consideração. Spoiler: essa não era uma característica muito apreciada pelos adultos. Aparentemente, não é até hoje.

O fato inegável é que é exaustivo e contraproducente viver assim. É, sem dúvida nenhuma, o caminho mais certeiro para a frustração. Porque significa ser confrontada, cotidianamente, com a realidade da minha insignificância e da minha impotência. É ter que aceitar o quão pequena eu sou diante da imensidão dos problemas e das injustiças do mundo. E mesmo entendendo que, muitas vezes, há muitos motivos para que as coisas sejam como são, ainda assim, é difícil aceitar.

Não existe sequer uma célula conformista no meu ser. Não há um dia em que eu não fique profundamente revoltada com alguma mazela do mundo, que muito provavelmente poderia ser evitada ou consertada, se as pessoas com o poder e os recursos para tal quisessem. Não há um minuto em que eu não me questione por onde anda a tal “justiça divina”, que permite que os maus se deem tão bem na vida e que os perversos usufruam “do bom e do melhor”, ao custo do sofrimento da maioria esmagadora do resto de nós, réles mortais.

Eu sigo convicta de que pessoas resignadas não mudam o mundo. E que um pouquinho de sangue correndo nas veias é bom e nos mantém vivos e alertas. Mas entendi, também, que parte da experiência humana é justamente aprender a lidar com as frustrações. Que o crescimento raramente vem sem dor. E que às vezes o caminho das pessoas indignadas é solitário e incompreendido. Está tudo bem. Me consola saber que, ao menos, Belchior me entenderia:

“amar e mudar as coisas me interessa mais”.

Sobre o autor

Mayara Godoy

Palestrante de boteco. Internauta estressada. Blogueira frustrada. Sarcástica compulsiva. Corintiana (maloqueira) sofredora. Capricorniana com ascendente em Murphy. Síndrome de Professor Pasquale. Paciente como o Seo Saraiva. Estudiosa de cultura inútil. Internet junkie. Uma lady, só que não. Boca-suja incorrigível. Colunista de opiniões aleatórias. Especialista em nada com coisa nenhuma.

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