Sessão pipoca

Adolescência

Escrito por Juliana Britto

A série Adolescência, da Netflix, é um soco no estômago. E todo mundo deveria assisti-a.

Imagino o grande vazio que se abre no peito dos espectadores da minissérie Adolescência, dirigida por Philip Barantini (Reino Unido, Netflix, 2025), por isso mesmo, penso que é importante escrever para pensar. Não exatamente sobre a minissérie, mas sobre percepções que nos sufocam em meio a um cenário constante de banalização e naturalização da violência que tem servido para nos manter ocupados e dispersos. Nesse processo, não posso deixar de registrar o poder simbólico do audiovisual em ainda ser capaz de levantar questões sobre as quais fingimos ser impotentes para enfrentá-las. Nesse sentido, seriam as telas a nossa última maneira de enxergar/inventar o “real”? Perdemos para sempre a capacidade de ver com nossos próprios olhos e intuição o que está perto de nós?

Seguem algumas inquietações que me assombram ao ver os créditos subirem e perceber o nó na garganta me sufocar:

Passamos grande parte do nosso tempo sozinhos, sobretudo na era do capitalismo. Durante nossa infância, nossos responsáveis saem para trabalhar. A maioria absoluta dos pais e mães trabalham ou buscam emprego para sobreviver; alguns estudam para continuar empregados ou conseguir melhores colocações. Os que ficam em casa estão ocupados com mil tarefas ou estão buscando atividades que girem em torno do trabalho, remunerado ou não. Quando podem, os adultos buscam vazão para esquecer a labuta e se entreter. O celular é um ótimo, e relativamente barato, distrator. Talvez por isso, e por outros motivos, compreendam a companhia que o celular ou computador representam para os filhos, afinal, em algumas circunstâncias, mantém os meninos e meninas em casa, longe dos perigos das ruas. Será mesmo? A que custo?

Viver custa caro. Aos trabalhadores resta sobreviver em busca das migalhas de consumo que lhes são permitidas, ilusões anestésicas. Quando chegam à noite, estão cansados. Querem dormir, ver TV, futebol, navegar na internet ou ir para a Igreja. Filhos querem conversar, ficar junto, mesmo quando acham que não. Somos gregários. No pouco tempo para a sociabilidade moderna presencial, é comum que crianças e adolescentes não queiram que o dia acabe sem ter vivido com os pais, cuidadores ou amigos, com quem se gosta e se pensa pertencer; querem que a noite continue. É fácil notar que o encontro e descanso reparadores nunca são plenamente possíveis, principalmente para quem tem filhos pequenos e ou em idade escolar.  Estamos todos cansados. Como a máquina que não pode parar, os dias e noites seguintes se repetem por tempo considerável. Quando se vê, os filhos já cresceram e os pais já estão velhos. Continuamos a correr, como numa marcha em que se deve passar adiante o bastão por gerações e gerações.

Personagem Katie, morta na série Adolescence

Durante a adolescência atual, o ritmo de trabalho dos adultos à nossa volta não amenizou e continuamos sozinhos, nos nossos mundos de incerteza, incompreensões, de falta. A vida adulta parece tão distante e ao mesmo tempo tão próxima. O tempo é muito complexo nesse período, só recentemente inventado. Há pouco mais de cem anos não existia adolescência. De crianças já se passava para a vida adulta sem nenhuma transição. Talvez por isso os adultos se esqueçam tão rápido como é viver nessa fase em que não se é mais criança, mas ainda não se é adulto.

A maioria de nós não tem acesso as coisas e ao status que o mercado diz ser importante e fundamental, e por isso, nos acreditamos injustiçados. Queremos ter como os outros. Queremos ser os outros. Enxergamos os defeitos dos nossos pais e a falta, não queremos ser como eles. Não queremos ser quem somos.

A falta, essência de quem vive, nos leva a buscar caminhos, respostas; nos conduz ao desejo de sermos aceitos, amados. No entanto, nada é suficiente, pois nada nos pertence. O tédio do tempo que escoa sem sentirmos que algo muda é dilacerante em todas as fases da vida. Esse quebrar-se, desarranjo e desconforto permanente, pode nos conduzir ao crescimento, a inventar estratégias para sobreviver ou a afundar em mentiras que nos contam ou que contamos para nós mesmos, como numa armadilha fatal. A mediação de adultos afetuosos e responsáveis poderia ajudar a atravessar essa fase com menos sequelas.

Nessa solidão de criança e adolescente, podemos nos machucar e ferir a quem está perto, como reação ao que não compreendemos. Às vezes, são feridas que se fecham sozinhas; outras tantas nunca fecham e nos constituem. Marca nossos passos e formas de sentir/agir. Quantas feridas evitáveis têm doído em nossos meninos e meninas?

Não temos tantas escolham assim, como pensam os que têm opinião sobre absolutamente tudo. Nossos pais precisam trabalhar para levar o pão para casa e tudo o mais que eles acham importante para reparar aquilo que eles não foram ou o que fizeram com eles. Também são crianças que precisam de proteção, companhia e amor. Nos vemos neles e eles se veem em seus filhos e filhas, em nós. A nossa solidão, a nossa falta também é o mesmo desamparo que eles experimentam.

Olhar e conversar com o outro que está “lá fora”, na tela, na rua pode parecer uma fuga confortável e segura. Nunca é. As pessoas que machucamos nunca aparecem, não são protagonistas das nossas histórias. As meninas e meninos que têm suas vidas ceifadas não aparecem; as milhares de mulheres silenciadas e mortas não aparecem nos filmes e séries que gostamos de ver, para sofrer a dor dos outros por alguns instantes e esquecer das nossas. Quando aparecem, são apenas notas de rodapé ou citações espetaculares, pois ver imagens de sofrimento também é entretenimento em nosso tempo – acredito que há muito tempo antes de nós.

O que mudou é que tudo, absolutamente tudo pode ser televisionado e assistido como se não fosse o real escorrendo em bits diante de nós. A isso chamam de banalização da violência, desumanização das vítimas etc. A vida delas é apenas pano de fundo para o grande espetáculo acontecer. Somos tentados, seduzidos a acreditar que o algoz é sempre a maior vítima. Isso é assustador, pois mesmo quando tentamos compreender os motivos do ódio e da violência, é sempre o futuro de quem odiou, de quem machucou ou agrediu é que está em jogo (ou seria o nosso futuro?). Quando a vítima morre (e há infinitas formas de matar e morrer) não há futuro para ela e sua família, só um imenso e doloroso vazio preenchido pelo “que poderia ter sido”. Ela não teve escolha; o agressor, sim.

Quem humilha, ofende e bate esquece. Mas quem apanha, quem é machucado não consegue apagar a dor completamente. Ela muda e a gente chama de outras coisas. Conta histórias de superação e quer acreditar que é possível seguir em frente. Há os que se transformam em valentões e nunca conseguem crescer. Serão eles os mais perigosos?

Seguir é preciso, para dar chance para coisas boas acontecerem. A solidão e a falta continuarão nos acompanhando e a gente se promete mil vezes não machucar e ser machucado, sempre que possível. Será possível seguir sem falar sobre o que nos atormenta? Viver em negação silenciosa, como num pacto de silêncio coletivo.

Diante de tudo isso, fico pensando sobre o papel do audiovisual na educação sentimental de toda uma sociedade, quando um pai só acredita na crueldade do filho quando a assiste numa tela; ao mesmo tempo que uma história tão forte como Adolescência usa as telas para nos alertar, sem nos trazer respostas, aberta a todo tipo de propósito, outras telas nos vendem coisas irreais, filtros, estilos de vida, deep web, com seus algoritmos e idiomas secretos ou explícitos que nos comandam e gritam, enquanto não somos capazes de entender as armas letais que apontamos para nós mesmos e para os outros. Tais distrações também são escamoteadas como entretenimento, como algo aparentemente inofensivo como vídeos caseiros, ou emoticons em comentários no Instagram. Seriam as telas a nossa última forma de ver o mundo ao mesmo tempo que o tornamos virtual?

Todos somos alvos da grande teia, da teia humana por trás das telas e dos desejos que nos levam a acreditar que são nossos, das formas de operar o capitalismo, o patriarcado. Por isso, nesse exato momento não consigo analisar racionalmente a minissérie Adolescência. Agora só sei sentir um imenso vazio e o desejo urgente de correr para pedir desculpas como filha, como irmã, como colega, como mãe, como professora por tanto tempo perdido. Só consigo ter raiva do patriarcado que ensina meninos e meninas a buscarem papéis de opressão para enfrentar o mundo. Só consigo pedir pela queda do capitalismo, esse sistema tão cruel que se reinventa cada vez mais perverso a cada crise. Só consigo fazer perguntas:

Por que crianças e adolescentes precisam ligar o modo de defesa o tempo todo? Por que meninos são ensinados por outros meninos e adultos e até por suas mães e colegas a serem predadores? Por que meninos não falam dos seus sentimentos? Por que mulheres precisam buscar sempre o apaziguamento das feras para que a vida continue? Por que homens são eternos meninos? Por que extinguimos o tempo lento do diálogo e do entendimento entre nossas diferenças? Por que não conseguimos lidar com a rejeição e as frustrações, com a falta, essa sim, parte da vida? Por que não conseguimos perceber que as possíveis soluções são coletivas e não individuais como o capitalismo quer que pensemos? E o mais importante: por que Katie não está mais aqui para crescer e criar um mundo diferente conosco? Por quê?

Quando seremos capazes de ir além das perguntas e imagens óbvias e agir?

Minissérie Adolescência (Netflix, 2025)

Ficha Técnica:
Título:  Adolescence (Original)
Ano: 2025
Dirigido por: Philip Barantini
Roteiro: Jack Thorne e Stephen Graham
Formato: Minissérie
Episódios: 4
Duração: 229 minutos
Classificação: Não recomendado para menores de 14 anos
Gênero: Drama; Mistério; Policial Thiller
País de origem: Reino Unido
Elenco: Stephen Graham, Ashley Walters, Erin Doherty, Owen Cooper, Faye Marsay, Christine Tremarco, Mark Stanley, Jo Hartley, Amélie Pease
Sinopse: Um garoto de 13 anos é acusado de matar uma colega de escola, levando a família, a terapeuta e o investigador do caso a se perguntarem o que realmente aconteceu.

Sobre o autor

Juliana Britto

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